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            Era quarta-feira estava no ônibus indo para uma consulta quando em mais uma dessas paradas em que o ônibus faz, entra um Senhor com seu chapéu cinza e seu cachecol quadriculado, vou chama-lo de João. Ele pediu licença e perguntou se poderia sentar na poltrona que estava vazia ao meu lado, respondi que sim, retirei minhas sacolas e ele sentou.
João logo observa que estou lendo um livro e me pergunta se gosto de ler, respondo que sim, que é uma das grandes paixões da minha vida. João então me falou que gostava muito de histórias de amor, nem tanto de ler elas em livros, mas de ler e ver elas em pessoas.
Logo me interessei e fiquei surpresa, confesso sou apaixonada por história de amor, seja lá qual e como for.
Falei que não havia lhe entendido, então João logo começou a me contar:
“Quando eu era jovem, cometi muitos erros. Achei que meu coração não servia para muita coisa. Muito novo, tinha que trabalhar para ajudar meus pais em casa e também tinha que estudar para construir um futuro. Por tudo isso, acabei deixando grandes pessoas irem embora da minha vida. Eu era muito orgulhoso, filho de pais que nunca foram muito carinhosos, e isso era tudo o que eu sabia sobre o amor, até que um dia eu olhei nos olhos de uma mulher, nunca esqueci os olhos dela, eram azuis, azuis tão claros quanto a lagoa que no fim da tarde ia pescar. Ela era doce de um jeito que nunca vi e cuidava de mim de um jeito que nunca ninguém cuidou. Nós começamos a namorar, até que um dia minha mãe ficou muito doente, não sabíamos mais o que fazer. Todo dinheiro era gasto para seus medicamentos e para ir atrás de médicos, até que ela faleceu. Meu pai se entregou para as bebidas, não estar sóbrio era o único remédio que curava sua saudade, meus tios preocupados me convidaram para morar com eles, meus tios moravam em outro estado. A relação com meu pai estava cada dia pior, mas como eu deixaria a menina dos olhos mais lindos do mundo e do colo mais seguro para trás?! Não tive saída, lembro como se fosse hoje, o nosso despedir, naquele dia descobri que meu coração servia para muita coisa, estava dentro dele a saudade e o amor de minha mãe, a tristeza por ver meu pai aos poucos se destruir e também um pedaço da minha menina, pedaço desse amor que estava deixando para trás.”
Então João parou de falar, meu coração parecia estar sendo esmagado, logo perguntei: "E ai, o que aconteceu?"
Ele me respondeu: “Eu trabalhei, me formei, me casei, tive quatro filhas e sou um homem de sorte”.
Minha expectativa foi totalmente por água baixo, estava esperando que ele me contasse que ele voltou para sua cidade natal, que eles se encontraram, que era amor de verdade.
João seguiu falando que a poesia está naquilo que sentimos e naquilo que despertamos nas outras pessoas, no que falamos e principalmente no que deixamos que elas imaginem e sonhem.
Ele começou a mexer em seu bolso, retirou sua carteira e me mostrou uma foto de sua neta, era linda, cabelos claros, ele disse que a semelhança com sua filha era incrível. De repente João aperta a campainha, sua parada se aproximava, começou a se despedir e se levantou, mas antes de sair ele me fala: - Ela tem os olhos de sua avó.
Sorri, os olhos de sua neta eram azuis, mesmo azul que eu imaginei enquanto ele descrevia seu grande amor.
Foi a primeira vez que li uma história de amor em uma pessoa, realmente João, a poesia está ali, no que senti.

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